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Berenice, minha colega de escritório

Não sei quando Berenice nasceu, mas eu a encontrei no final de fevereiro, a mais altiva das Phalaenopsis de uma bancada do Garden Sul. Eu adoro esse gênero porque é de uma generosidade ímpar com quem nunca cuidou de uma orquídea: com um pouco de água e adubo, ela floresce até quatro vezes por ano, sempre com muitas flores por haste. Phalaenopsis foi a primeira orquídea que tive na vida e não à toa é a primeira orquídea de muito colecionador.

Niqui eu peguei a Berenice e botei no carrinho, e ela deu uma balançadinha me fazendo uma mesura com seu longo pescoço florido. No caixa, o susto: ela custava caro. Phalaenopsis são um dos cinco gêneros mais populares entre as orquídeas (junto com Cattleya, chuva-de-ouro, Cymbidium e Dendrobium) e as técnicas de reprodução modernas conseguem gerar milhares de espécies híbridas, resistentes e baratas. Comquipodia minha futura filha custar oitenta pilas?

Eu estava prestes a começar uma nova fase na vida. Tinha mudado de redação, de público, até mesmo de mídia. Depois de quatro anos escrevendo para uma revista feminina popular, estava prestes a lidar com aplicativos para celular em duas áreas muito queridas, turismo e sustentabilidade. E ali, com o vaso na mão, lembrei que era preciso desapegar para começar uma nova fase. Não, eu não levaria aquela Phalaenopsis linda, porque já tinha muitas orquídeas e aquela era cara demais. Levá-la seria puro capricho. E o vaso ficou ali do lado do caixa, onde a razão sufoca os desejinhos bestas.

A história terminaria aqui não fosse minha sogra me olhar estupefata. Eu fiz o discurso completo, desapego, consumismo, necessidade, enfiei até a Rio+20 no meio para dizer que estava me sentindo muito bem em deixar a planta ali. Num daqueles movimentos de mãe emprestada, ela se saiu com um “ma que vai deixar, mané vai deixar!”, me empurrou para a frente, passou no caixa e enfiou o vaso no carrinho. Berenice – que nascia para mim naquele exato instante – assentiu com uma pétala.

Desde então, ela me faz companhia de segunda a sexta. Não reclama da vista, do ar condicionado, dos serões, da falta de rega nos finais de semana. Não faz sujeira nem fofoca. E basta eu olhar para ela para voltar a ser uma criança suja de terra, brincando descalça no quintal do meu avô.

2 Comments

  1. Inaie says:

    que linda a sogra e a Berenice…

    1. carolcosta says:

      As duas são fofas, sim, Inaie! Sou uma garota de sorte.

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